{"id":196,"date":"2017-10-11T16:15:11","date_gmt":"2017-10-11T19:15:11","guid":{"rendered":"http:\/\/imagensdeareia.com.br\/?p=196"},"modified":"2017-10-11T16:15:11","modified_gmt":"2017-10-11T19:15:11","slug":"brasil-e-desigual-porque-as-familias-pobres-tinham-muito-mais-filhos-que-as-ricas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/?p=196","title":{"rendered":"Brasil \u00e9 desigual porque as fam\u00edlias pobres tinham muito mais filhos que as ricas?"},"content":{"rendered":"<p>Um motor importante (e pouco lembrado) da desigualdade e da mis\u00e9ria no Brasil \u00e9 a demografia. O fato de, por um longo per\u00edodo, mulheres pobres terem tido mais filhos que mulheres ricas elevou a estat\u00edstica da desigualdade. Nos anos 1970, a diferen\u00e7a era enorme: cada mulher pouco escolarizada tinha, em m\u00e9dia, 4,5 filhos a mais que as escolarizadas. Em 2005, o motor tem uma pot\u00eancia menor (diferen\u00e7a de 1,6), mas continua ligado. \u201cOs pobres n\u00e3o apenas t\u00eam menores sal\u00e1rios que os ricos, mas tamb\u00e9m dividem esse sal\u00e1rio entre mais indiv\u00edduos, resultando em maior desigualdade de renda per capita\u201d, dizem os economistas Ricardo Hausmann e Miguel Sz\u00e9kely num estudo sobre fecundidade e desigualdade na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Trata-se de simples aritm\u00e9tica. A renda per capita, como diz o nome, \u00e9 calculada pelo n\u00famero de cabe\u00e7as. Um casal que ganha 1.400 reais e tem tr\u00eas filhos resulta numa renda per capita de 280 reais. Se o mesmo casal tivesse cinco filhos, a renda per capita cairia para 200 reais.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 claro, se o casal continuar ganhando 1.400 reais. Infelizmente h\u00e1 muitas chances de a renda diminuir com o aumento da fam\u00edlia. Filhos exigem tempo \u2013 tempo que os pais poderiam gastar trabalhando. Mais filhos significam menos chances (sobretudo entre as m\u00e3es) para trabalhar e ganhar dinheiro. Esse efeito \u00e9 maior em mulheres com sal\u00e1rio baixo, que t\u00eam menor custo de oportunidade (ou seja, perdem pouco se decidirem largar o trabalho para ficar em casa cuidando das crian\u00e7as).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mais filhos significam mais gastos \u2013 e menos dinheiro para investir na educa\u00e7\u00e3o de cada um. \u201cO n\u00famero de filhos que um casal decide ter possui forte rela\u00e7\u00e3o com o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o que os pais conseguir\u00e3o fornecer aos filhos\u201d, dizem Hausmann e Szekely. Cada crian\u00e7a come\u00e7ar\u00e1 a vida com uma parte menor da renda dos pais e com menor escolaridade. Um estudo de 2014 mostra que at\u00e9 40% da queda da desigualdade de renda s\u00e3o explicados pela queda na desigualdade de escolaridade.<\/p>\n<p>Fica ainda pior. Crian\u00e7as com pouca escolaridade, quando crescerem, v\u00e3o concorrer no mercado por vagas de pouca qualifica\u00e7\u00e3o, aumentando a oferta de trabalhadores n\u00e3o qualificados.\u00a0 Uma vez que sal\u00e1rios, assim como qualquer pre\u00e7o, s\u00e3o definidos pela oferta e procura, o sal\u00e1rio de pessoas n\u00e3o qualificadas vai cair, aumentando a diferen\u00e7a de renda entre pouco e muito qualificadas. O maior n\u00famero de filhos ainda resulta numa poupan\u00e7a menor \u2013 e um pa\u00eds com menos economias tem menos capacidade de investimento.<\/p>\n<p>Por outro lado, se voc\u00ea tem menos filhos, pode investir mais na educa\u00e7\u00e3o de cada um deles, quem sabe pagar um interc\u00e2mbio com a Inglaterra quando o rapaz chegar \u00e0 adolesc\u00eancia. Se menos jovens bem qualificados aparecem no mercado, cai a oferta de empregados para vagas mais qualificadas; devido \u00e0 oferta e \u00e0 procura, o sal\u00e1rio nessas \u00e1reas sobe. Em 1973, o economista Carlos Langoni mostrou que, se a economia cresce muito r\u00e1pido, a baixa educa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os se torna um motor potente de desigualdade. Com muitas empresas \u00e0 procura de funcion\u00e1rios, os poucos candidatos qualificados viram uma mercadoria t\u00e3o escassa quanto casa de praia durante a temporada. O sal\u00e1rio deles sobe muito mais que o dos menos educados, aumentando a desigualdade.<\/p>\n<p>Resumindo: pobres, em geral, dividem a renda com mais indiv\u00edduos e educam menos os filhos, contribuindo para oferta maior (e menores sal\u00e1rios) de trabalhadores pouco qualificados; ricos dividem a renda com menos filhos e conseguem dar uma melhor educa\u00e7\u00e3o a eles, contribuindo para n\u00e3o aumentar a oferta (e garantindo maiores sal\u00e1rios) de pessoas bem qualificadas.<\/p>\n<p>O poder dessa m\u00e1quina de desigualdade j\u00e1 foi calculado. Em 2010, 45,2% dos brasileiros eram donos de apenas 10% da renda do pa\u00eds, enquanto 5,9% dos brasileiros ficavam com 40% da renda. Como seriam esses n\u00fameros se a fecundidade de 1980 tivesse permanecido est\u00e1vel at\u00e9 2010? Ter\u00edamos mais pobres dividindo os mesmos 10% e menos ricos desfrutando os 40% da renda nacional. \u201cSe a natalidade n\u00e3o tivesse ca\u00eddo, as propor\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis seriam de 62% e 4,1%, respectivamente\u201d, diz a pesquisadora Ana Am\u00e9lia Camarano, do Ipea.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11749\" src=\"https:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/grafico.png\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" srcset=\"https:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/grafico.png 610w, https:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/grafico-300x100.png 300w\" alt=\"grafico\" width=\"610\" height=\"203\" \/><\/p>\n<p>O dem\u00f3grafo Jer\u00f4nimo Muniz, da UFMG, tem estudos similares. Ele calculou o que aconteceria com a desigualdade social no Brasil entre 1990 e 2000 se todas as vari\u00e1veis, com exce\u00e7\u00e3o da demografia, ficassem constantes. Em 1990, a diferen\u00e7a de fecundidade entre mulheres pobres e ricas era bem menor que nas d\u00e9cadas anteriores, mas ainda existia. \u201cSe a demografia fosse o \u00fanico componente do c\u00e1lculo, a propor\u00e7\u00e3o de pobres aumentaria 28% entre 1990 e 2000. Isso corresponderia a 42% da popula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a desigualdade seria at\u00e9 40% maior\u201d, diz Muniz. Por causa da estabilidade da moeda e o crescimento (ainda que pequeno) da economia, houve um movimento modesto na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria: a pobreza caiu 9% entre 1990 e 2000.<\/p>\n<p>Estaria eu culpando a v\u00edtima ao dizer que as mulheres de classe baixa s\u00e3o respons\u00e1veis pela alta desigualdade do Brasil? Nunca me esque\u00e7o de uma vizinha da minha m\u00e3e que pagava menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para a empregada e n\u00e3o cansava de dizer que os pobres eram pobres porque nada faziam al\u00e9m de ter filhos. N\u00e3o: culpa n\u00e3o \u00e9 um conceito que funciona bem em economia. Os pobres provavelmente ficaram presos numa armadilha: sem dinheiro e informa\u00e7\u00e3o, tiveram muitos filhos, o que os deixou com ainda menos dinheiro e informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 correto culpar os pobres nem os ricos pela desigualdade. Basta entender que \u00e9 a demografia, e n\u00e3o tanto a opress\u00e3o das grandes empresas e do capitalismo, que explica boa parte da concentra\u00e7\u00e3o de renda no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O texto acima est\u00e1 presente no livro <strong>Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira<\/strong>, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela Editora LeYa. Quer saber como adquiri-lo? D\u00e1 uma clicada <a href=\"http:\/\/www.buscape.com.br\/livros-guia-politicamente-incorreto-guia-politicamente-incorreto-da-economia-brasileira-leandro-narloch-9788544103456.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nesse link<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um motor importante (e pouco lembrado) da desigualdade e da mis\u00e9ria no Brasil \u00e9 a demografia. O fato de, por um longo per\u00edodo, mulheres pobres terem tido mais filhos que mulheres ricas elevou a estat\u00edstica da desigualdade. 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