{"id":194,"date":"2017-10-11T16:13:36","date_gmt":"2017-10-11T19:13:36","guid":{"rendered":"http:\/\/imagensdeareia.com.br\/?p=194"},"modified":"2017-10-11T16:13:36","modified_gmt":"2017-10-11T19:13:36","slug":"desigualdade-e-diversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/?p=194","title":{"rendered":"desigualdade e diversidade."},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do livro <em>A Jangada de Pedra<\/em> gira em torno de um epis\u00f3dio descomunal: o territ\u00f3rio de Portugal e Espanha se separa do resto da Europa e passa a vagar pelo oceano Atl\u00e2ntico. \u201cA Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual (\u2026) abriram-se os Pireneus de cima a baixo como se um machado invis\u00edvel tivesse descido das alturas\u201d, conta Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante imaginar uma continua\u00e7\u00e3o desse estranho fen\u00f4meno. Digamos que a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, pairando sobre o Atl\u00e2ntico, comece a atrair o territ\u00f3rio de outros pa\u00edses. A Dinamarca \u00e9 o primeiro. A ponte que liga Copenhague \u00e0 Su\u00e9cia de repente se rompe; o territ\u00f3rio dinamarqu\u00eas se desprende tamb\u00e9m do norte da Alemanha, atravessa o mar do Norte e encontra portugueses e espanh\u00f3is no Atl\u00e2ntico. Na costa oriental da \u00c1frica, Qu\u00eania e Tanz\u00e2nia t\u00eam o mesmo destino. Os dois pa\u00edses se desprendem da \u00c1frica, contornam o cabo da Boa Esperan\u00e7a, sobem o Atl\u00e2ntico e se fundem aos tr\u00eas outros separatistas. Ter\u00edamos assim um novo pa\u00eds, que agruparia no mesmo territ\u00f3rio mais de 150 milh\u00f5es de habitantes da Dinamarca, Espanha, Portugal, Qu\u00eania e Tanz\u00e2nia.<\/p>\n<p>Se os dinamarqueses, sempre atentos \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de renda, come\u00e7assem a medi-la nesse novo pa\u00eds, constatariam estar vivendo numa sociedade muito mais desigual. N\u00e3o apenas teriam, entre seus conterr\u00e2neos, quenianos e tanzanianos, alguns dos cidad\u00e3os mais pobres do mundo, como tamb\u00e9m 400 mil novos milion\u00e1rios espanh\u00f3is e portugueses, bem mais endinheirados que o dinamarqu\u00eas m\u00e9dio. A taxa de desigualdade iria \u00e0s alturas, ainda que fosse meio injusto lamentar esse efeito estat\u00edstico, pois sociedades obviamente diferentes haviam sido agrupadas de sopet\u00e3o no mesmo territ\u00f3rio. No meio desse novo pa\u00eds, um grupo s\u00f3 dos dinamarqueses continuaria t\u00e3o igualit\u00e1rio quanto antes. E as cidades que concentrassem todos os tipos de moradores seriam as mais desiguais.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno como esse \u2013 n\u00e3o o movimento acelerado de placas tect\u00f4nicas, mas a mistura de povos diversos num grande pa\u00eds \u2013 explica boa parte da desigualdade de renda do Brasil. Uma causa importante da desigualdade brasileira \u00e9 uma das qualidades que nos d\u00e1 orgulho: a mistura de povos e culturas. O fato de tribos ind\u00edgenas e imigrantes su\u00ed\u00e7os donos do Burger King conviverem dentro das mesmas linhas imagin\u00e1rias empurra a estat\u00edstica para cima.<\/p>\n<p>Se eu estiver certo, preciso provar que h\u00e1 uma Dinamarca incrustada no territ\u00f3rio brasileiro. Pois ela existe, fica no Rio Grande do Sul. Das quinze cidades mais igualit\u00e1rias do Brasil, doze s\u00e3o ga\u00fachas de origem alem\u00e3 (d\u00ea uma olhada na tabela a seguir). A cidade com a renda mais distribu\u00edda do pa\u00eds, S\u00e3o Jos\u00e9 do Hort\u00eancio, tem um \u00edndice de Gini de 0,28, abaixo dos 0,29 da Dinamarca. N\u00e3o houve nessas cidades nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica de redu\u00e7\u00e3o de desigualdade, nenhum imposto sobre fortunas ou coisa parecida. O que explica a igualdade por l\u00e1 \u00e9 simplesmente a semelhan\u00e7a entre os cidad\u00e3os. Assim como os dinamarqueses, quase todos ali t\u00eam a mesma origem cultural, o mesmo n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o. E muitos t\u00eam origem luterana, como os dinamarqueses, o que historicamente contribuiu para a igualdade. \u201cComunidades protestantes trabalharam para difundir educa\u00e7\u00e3o que garantiria que todos pudessem ler a B\u00edblia, o que tanto aumentou o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o quanto diminuiu sua varia\u00e7\u00e3o\u201d, diz o economista Edward Glaeser.<\/p>\n<p>AS CIDADES MAIS IGUALIT\u00c1RIAS DO BRASIL<\/p>\n<p><em>A semelhan\u00e7a entre os moradores explica a igualdade escandinava<\/em><\/p>\n<ol>\n<li>S\u00e3o Jos\u00e9 do Hort\u00eancio (RS) 0,28<\/li>\n<li>Botuver\u00e1 (SC) 0,28<\/li>\n<li>Alto Feliz (RS) 0,29<\/li>\n<li>S\u00e3o Vendelino (RS) 0,29<\/li>\n<li>Vale Real (RS) 0,29<\/li>\n<li>Santa Maria do Herval (RS) 0,30<\/li>\n<li>Tupandi (RS) 0,31<\/li>\n<li>Campestre da Serra (RS) 0,31<\/li>\n<li>Nova P\u00e1dua (RS) 0,32<\/li>\n<li>C\u00f3rrego Fundo (MG) 0,32<\/li>\n<li>Santa Rosa de Lima (SC) 0,32<\/li>\n<li>Picada Caf\u00e9 (RS) 0,32<\/li>\n<li>Presidente Lucena (RS) 0,32<\/li>\n<li>Vila Flores (RS) 0,32<\/li>\n<li>Morro Reuter (RS) 0,32<\/li>\n<\/ol>\n<p>Portanto, se voc\u00ea procura igualdade, pense em locais onde a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea: cidades habitadas somente por sertanejos pobres ou somente por descendentes de alem\u00e3es. Pessoas com a mesma origem e cultura. Caatiba, na Bahia, \u00e9 t\u00e3o igualit\u00e1ria quanto Portugal ou o Jap\u00e3o (Gini 0,39). Pois Caatiba re\u00fane s\u00f3 um tipo de moradores \u2013 fam\u00edlias pobres de pequenos criadores de gado.<\/p>\n<p>Em contrapartida, para achar os locais com maior desigualdade de renda, \u00e9 preciso mirar nas cidades em que grupos bem diferentes moram juntos. \u00c9 o caso das capitais, que atraem tanto o Jo\u00e3o Paulo Diniz, herdeiro da rede de supermercados P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, quanto o ex-boia-fria que sonha em ganhar mil reais por m\u00eas como jardineiro do Jo\u00e3o Paulo Diniz. Mesmo Florian\u00f3polis e Curitiba, as duas capitais mais igualit\u00e1rias do Brasil, est\u00e3o acima da m\u00e9dia nacional de desigualdade.<\/p>\n<p>No entanto, por causa da classe m\u00e9dia expressiva, as capitais n\u00e3o s\u00e3o as campe\u00e3s nesse quesito. As cidades mais desiguais s\u00e3o aquelas que re\u00fanem um peda\u00e7o da Dinamarca, outro do Qu\u00eania e s\u00f3. \u00c9 o caso de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a cidade brasileira mais desigual. Com um \u00edndice de Gini de 0,80, ela supera de longe Seychelles, o pa\u00eds com renda mais concentrada no mundo (0,65). O motivo? Em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira h\u00e1 apenas dois tipos de moradores: mais de 400 tribos ind\u00edgenas, que formam 74% da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o t\u00eam renda formal, e militares, m\u00e9dicos e outros agentes federais muito bem pagos. De fronteira com a Venezuela e a Col\u00f4mbia, S\u00e3o Gabriel da Cachoeira \u00e9 sede de batalh\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os federais de vigil\u00e2ncia. A cidade prova, como nenhuma outra, a import\u00e2ncia da diversidade cultural para a desigualdade econ\u00f4mica. \u201cEm pa\u00edses particularmente igualit\u00e1rios, como os da Escandin\u00e1via, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 geralmente bem-educada e a distribui\u00e7\u00e3o de qualifica\u00e7\u00e3o bem compacta\u201d, afirma o economista Edward Glaeser. \u201cJ\u00e1 pa\u00edses particularmente desiguais e em desenvolvimento, como o Brasil, s\u00e3o enormemente heterog\u00eaneos nos n\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o entre elites urbanas bem-educadas e trabalhadores do campo pouco educados.\u201d<\/p>\n<p>Talvez a miscigena\u00e7\u00e3o atue ainda de outra maneira. Provavelmente por vantagens evolutivas da lealdade de grupo, as pessoas tendem a contribuir mais com quem se parece com elas ou pertence \u00e0 mesma identidade coletiva. Palmeirenses ficam mais contrariados com o dinheiro p\u00fablico gasto no Itaquer\u00e3o que os corintianos. O economista Erzo Luttmer mostrou em 2001 que, nos Estados Unidos, o valor dos programas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 menor nos estados onde a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais diversa. \u201cSe indiv\u00edduos preferem contribuir para sua pr\u00f3pria ra\u00e7a, etnia ou grupo religioso, eles optam por menos redistribui\u00e7\u00e3o quando membros de seu grupo constituem uma parte menor dos benefici\u00e1rios\u201d, diz Luttmer. \u201cCom o aumento da diversidade, a por\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1rios que pertencem a um grupo diminui em m\u00e9dia. Ent\u00e3o o apoio m\u00e9dio para redistribui\u00e7\u00e3o cai se a diversidade aumenta.\u201d\u00a0Isso leva a uma conclus\u00e3o impressionante. N\u00e3o foi o estado de bem-estar social que possibilitou a igualdade da Dinamarca, mas o contr\u00e1rio: a semelhan\u00e7a entre os cidad\u00e3os escandinavos possibilitou o estado de bem-estar social.<\/p>\n<p>Quem quer um Brasil com um \u00edndice escandinavo de igualdade precisa torcer para que algum fen\u00f4meno a la Saramago divida o pa\u00eds em diversos territ\u00f3rios. Uma alternativa \u00e9 deixar de ligar tanto para a estat\u00edstica de desigualdade \u2013 e desfrutar a diversidade e a miscigena\u00e7\u00e3o que definem o Brasil.<\/p>\n<p><em>O texto acima est\u00e1 presente no livro <strong>Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira<\/strong>, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela Editora LeYa. Quer saber como adquiri-lo? D\u00e1 uma clicada <a href=\"http:\/\/www.buscape.com.br\/livros-guia-politicamente-incorreto-guia-politicamente-incorreto-da-economia-brasileira-leandro-narloch-9788544103456.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nesse link<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do livro A Jangada de Pedra gira em torno de um epis\u00f3dio descomunal: o territ\u00f3rio de Portugal e Espanha se separa do resto da Europa e passa a vagar pelo oceano Atl\u00e2ntico. \u201cA Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual (\u2026) abriram-se os Pireneus de cima a baixo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/194"}],"collection":[{"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":195,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/194\/revisions\/195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/imagensdeareia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}